|
Já
escrevi duas levas de textos contra o celibato de padres
da Igreja Católica. A primeira foi em outubro de 2007.
Integram esse grupo posts como O desastre do celibato:
São Pedro tinha sogra! e Igreja não é armário. Voltei
com uma nova série em 2008, quando o padre Júlio Lancelotti
foi acusado de molestamento por um rapaz com quem ele
mantinha uma relação que se mostrou imprópria, ainda
que fosse pia.
Vejo, agora, a Igreja sacudida por novas acusações de
pedofilia na Europa e no Brasil: há um caso escabroso
em Arapiraca, em Alagoas, noticiado na VEJA desta semana.
Como o ódio à Igreja é grande mais por seus acertos
do que por seus erros, procura-se magnificar o que já
é criminoso e desastroso: tenta-se arrastar o próprio
papa para o centro do furacão: seu irmão, também sacerdote,
teria protegido um padre pedófilo. E isso não vai acabar
tão cedo. Aproveita-se a fragilidade da Igreja para
tentar pôr a igreja de joelhos — diante do laicismo,
não de Deus.
A condição de casado ou celibatário, em si, não faz
alguém ser mais ou menos fiel aos princípios que abraçou.
Mas é inegável que a exigência do celibato acaba sendo,
em muitos casos, uma solução socialmente aceitável para
muitos rapazes que, de outro modo, teriam de se haver
com explicações nem sempre fáceis perante a família
e a comunidade. Que importa que a esmagadora maioria
dos padres cumpra o seu compromisso? Bastam uns poucos
para produzir o desastre.
Não sou da hierarquia católica, apenas um católico.
Como tal, não só posso como devo debater o que não for
matéria dogmática. Vejo com grande tristeza, melancolia,
às vezes quase revolta, os ataques vis que sofre o patrimônio
moral da Igreja Católica, que tenho como um dos esteios
da civilização ocidental. Eu e qualquer pessoa de juízo.
A reação da hierarquia às acusações tem sido frágil,
quando não é pífia. Abriu as portas da Santa Madre para
o marxismo, e o mal nela se insinuou e corrói seus valores
— aí, sim, ferindo muitas vezes dogmas e princípios
—, mas se aferra, como é o caso do celibato, a algumas
escolhas que atenderam a conveniências de época e que
hoje se mostram fonte de desgaste e de humilhação. O
mal entrou na Igreja, e os fiéis estão saindo.
O celibato foi instituído no ano 390 — portanto, ela
viveu quase quatro séculos sem ele. Sei que vou entrar
numa pinima danada. Já me bastaria o ódio dos que chamo
partidários da “escatologia da libertação” (que, de
teologia, não tem nada). O celibato é matéria apenas
de interpretação, nada mais. Torná-lo uma questão de
princípio, como é a defesa da vida — e, pois, a rejeição
ao aborto —, é superestimar uma (o celibato) e rebaixar
outra (a defesa da vida).
Na minha Bíblia — e na sua também, leitor amigo —, São
Pedro tem sogra. Sei que sou aborrecidamente lógico
às vezes, mas é de se supor que tinha ou teve uma mulher:
“E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste
acamada, e com febre. E tocou-lhe na mäo, e a febre
a deixou; e levantou-se, e serviu-os”. Está em Mateus,
8:14-15.
Na Primeira Epístola a Timóteo, ninguém menos que São
Paulo recomenda:
“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado,
excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja
irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio,
honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. Não dado ao
vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância,
mas moderado, não contencioso, não avarento” (I Tim,
3:1-3).
Os defensores radicais do celibato pretendem dar a estas
palavras um sentido diverso. Desculpem. Trata-se de
forçar a barra. Na seqüência, São Paulo não deixa a
menor dúvida:
“Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos
em sujeição, com toda a modéstia. Porque, se alguém
não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da
igreja de Deus?)” (I Tim, 3:4-5).
Não quero ser ligeiro. Sei bem que há outras passagens
que endossam o celibato. Mas fica claro que se trata
de uma questão de escolha, sim, não de fundamento; trata-se
de uma questão puramente histórica, não de revelação.
O celibato pode ter sido útil em tempos bem mais difíceis
da Igreja. A dedicação exclusiva à vida eclesiástica
pode ter feito um grande bem à instituição. Mas é evidente
que se tornou um malefício, um perigo mesmo, fonte permanente
de desmoralização. A razão é mais do que óbvia. A maioria
dos padres, é possível, vive o celibato e leva a sério
o seu compromisso. Mas é claro que o sacerdócio também
se tornou abrigo de sexualidades alternativas, que não
têm a mesma aceitação social do padrão heterossexual.
E que se note: também existem desvios de conduta de
padres heterossexuais.
Poderá perguntar alguém: pudesse o padre casar, a Igreja
estaria absolutamente protegida de um adúltero, por
exemplo? É claro que não. Mas não tenho dúvida de que
estaria muito menos cercada de escândalos. Talvez se
demore mais um século até que isso venha a ser debatido,
sempre no tempo da Igreja Católica, que não é este nosso,
da vida civil. Mas é importante que os católicos, em
especial aqueles que não aderiram a heresias marxistas,
comecem a pensar que o celibato não compõe o núcleo
da doutrina cristã ou um fundamento do catolicismo.
Foi, num dado momento, a escolha de uma forma de organização.
Que, hoje, traz mais malefícios do que benefícios.
Sou o primeiro a considerar que a Igreja não tem de
ceder a todos os apelos da, vá lá, modernidade, abrindo
mão de seus princípios. Só que falta provar que o celibato
é um princípio. Não é.
De fato, a obrigação de um sacerdote deveria ser outra,
como queria São Paulo: “Convém, pois, que o bispo seja
irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio,
honesto, hospitaleiro, apto para ensinar.”
A obrigação deveria ser o casamento, não o contrário.
Compreendo — e tenho até certa atração intelectual por
elas — algumas inteligências que, ao perceberem que
determinado remédio resulta num malefício, decidem dobrar
a dose para ver se não foi a falta de convicção que
trouxe o resultado contraproducente. Há nisso um certo
pessimismo místico e algum triunfalismo da derrota:
“Perderemos, mas sem jamais ceder.” É, eu detesto perder.
A mim me preocupa a crescente secularização da Igreja
em matérias que são realmente de dogma, enquanto permanece
aferrada a algumas práticas que constituem mais uma
esfera de costumes.
Erro
É um erro supor que o debate sobre o fim do celibato
integre o cardápio da esquerdização da Igreja. Aliás,
é curioso notar que os expoentes da Teologia da Libertação
no Brasil — com a provável exceção da audácia do Boff
— passam longe do assunto. O celibato confere aos padres
petralhas uma certa aura de santificação (e, acho eu,
isso, sim, cheia a pecado) que melhor esconde a sua
atuação política.
É evidente que o primeiro efeito positivo do fim do
celibato seria atrair para a Igreja vocações que não
estão dispostas a abrir mão da bênção que é ter uma
família. E, ao longo do tempo, o sacerdócio deixaria
de ser um refúgio — e os escândalos estão aí à farta
— para os que pretendem usar a Igreja como resposta
socialmente aceita a suas inapetências e gostos. A Igreja,
aqui e no mundo, está a precisar menos de homens que
imitem Cristo num particular e mais de homens que sigam
as leis gerais do Cristo. Não é, infelizmente, o que
se tem amiúde visto. Também essa escolha traria novos
problemas para a Igreja? Sem dúvida. Acho, no entanto,
que o ganho seria, ao longo do tempo, bem maior do que
o prejuízo.
Disciplina
Sou o primeiro a afirmar — e, se vocês procurarem no
Google, vão encontrar opiniões minhas anteriormente
expressas a respeito — que ninguém é enganado ao escolher
pertencer à hierarquia católica. O padre sabe que está
obrigado à castidade e ao celibato. Portanto, a menos
que peça desligamento, não pode fugir a essas duas práticas,
entre muitas outras. Eu posso lastimar o que considero
malefícios óbvios da castidade. Ele não pode. O que
lhe está reservado é fazer de sua própria vida um testemunho
exemplar a) de sua fé; b) de observância das leis da
Igreja.
Infelizmente, as coisas não têm sido bem assim, não
é mesmo? Para tristeza e estupefação dos católicos no
Brasil e no mundo inteiro. Estou dizendo que, ao longo
da história, o que foi uma seleção de homens para construir,
com dedicação exclusiva, a Igreja de Cristo, tornou-se
fonte de perturbação e de desmoralização. Para seguir
“princípios”? Não! Trata-se de uma escolha feita, num
dado momento e sob certas circunstâncias históricas,
que hoje contamina o tecido da Igreja com um óbvio mal-estar.
Não fiz a contabilidade. Mas tendo a achar que existem
na Bíblia mais recomendações em favor do casamento do
que contra ele. Mas, ainda aqui, estaríamos só no terreno
da literalidade. A minha pergunta é outra:o que há na
mensagem espiritual de Cristo que recomende que o homem,
sacerdote ou não, viva apartado da mulher? Olhe aqui:
não importa a que corrente da Igreja você pertença —
ou, mais amplamente, do cristianismo, e a resposta é
uma só: NADA!!!
Uma Igreja que pudesse acolher um número muito maior
de vocações — homens que pudessem formar família — constituiria,
aí sim, a verdadeira comunidade eclesiástica. Não é
preciso ser muito agudo para perceber que os padres
vivem uma realidade que absolutamente os aparta da vida
real. E para quê? Para que possam se dedicar mais a
Deus e à Palavra? Lamento muito: isso é mentira! Boa
parte deles, hoje, infelizmente, ignora até o texto
bíblico. O que parece uma vida de renúncia se confunde
mais com alienação. Além, claro, da permanente tentação
demoníaca da “Escatologia da Libertação”.
O celibato tem de acabar não para revolucionar a Igreja.
Trata-se de um movimento de “conservação”. De certo
modo, corroída pela “revolução”, ela está hoje. Quantas
forem as recomendações contra o casamento que os “literalistas”
encontrarem, asseguro, outras poderão ser encontradas
a favor dele. A Igreja deve ser um lugar onde se vive
uma convicção, não onde se esconde uma condição. Igreja
não é armário.
|