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As
consequências da proliferação de seitas
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| Inserida
em 12/02/2010 - Fonte: Jornal de Angola/Notícias Cristãs |
A paz que Angola reconquistou, em 2002, favoreceu a
proliferação de seitas ou movimentos religiosos, vulgarmente
reconhecidos como igrejas, constituindo, assim, um fenómeno
social que está a marcar o país, agora de uma forma
mais evidente e alarmante.
Sendo um fenómeno social, está a levantar problemas
em vários níveis, sendo a primeira questão a clarificação
de termos, pois “igreja”, em rigor, nada tem a ver com
“seita”, tratando-se de realidades diferentes. Estas
premissas suscitam a necessidade de distinguir uma igreja
de uma seita ou de um movimento religioso, principalmente
quando se verifica uma desmesurada procissão de seitas
que se autoproclamam de “igrejas”.
Na verdade, igreja é uma instituição social, sendo um
agente de socialização, na medida em que espelha uma
organização que transmite o conteúdo da cultura de uma
geração a outra, e tendo uma hierarquia de funcionários
sérios e bem constituídos. Tem também um peso histórico
e uma dimensão universal, não se limitando a uma etnia
ou a uma região. Por seu turno, a seita é um agrupamento
de pessoas que professam a mesma doutrina religiosa,
e existe em todas as religiões. Para o catolicismo,
são geralmente heréticas e entre os protestantes são
numerosas e com doutrinas muito variadas. Surgem na
sequência das divergências no seio de uma comunidade
já constituída mas que ocasionalmente regista divergências
sobre certas questões. Quando isto acontece, na falta
de consenso entre as alas, por exemplo em relação à
doutrina estabelecida e a diferentes interpretações,
surgem problemas imediatos de segmentos da igreja em
regiões diferentes.
Nestas circunstâncias, regista-se a ruptura e nasce
uma seita que aparece como um grupo de crentes mais
pequeno e não tão hierarquizado, e surge como protesto
contra a comunidade de origem. Sendo uma pequena organização
formal, os seus líderes são quase sempre leigos ou pregadores,
relativamente sem formação específica ou sólida, mas
que declaram terem recebido um “chamamento” especial
para divulgar o evangelho. O seu objectivo, inicialmente,
é descobrir o caminho da verdade e segui-lo, e também
afastar-se da sociedade que a rodeia, encerrando-se
radicalmente na sua comunidade. Os seus membros vêem,
subjectivamente, as igrejas estabelecidas como corruptas.
Contudo, muitos destes grupos sociais são mais parecidos
com as comunidades étnicas tradicionais.
Actualmente, as seitas são incontáveis e multiplicaram-se
quase por toda a parte. Definem-se quer por uma base
de cristianismo, quer por elementos de religiões e de
culturas tradicionais. Em África, desenvolvem-se em
algumas formas sincretistas do cristianismo e do animismo.
Angola está a viver esta experiência “amarga”. Ultimamente,
este assunto tem merecido debates acalorados em todos
os níveis. Por isso, é muito justo falar, hoje, da proliferação
de seitas, que não podem ser confundidas com a expressão
igreja. Esta realidade está na senda das novas comunidades
ou grupos que vão desfilando em Angola, a partir da
própria cidade capital, que se tornou num verdadeiro
“carrefour” destes movimentos, por ser uma cidade onde
se entrecruzam cidadãos de várias etnias, línguas e
até nacionalidades. Trata-se de um despertar religioso
registado sobretudo depois da independência e, noutra
etapa, depois do fracasso dos Acordos de Bicesse, rubricados
em 1991.
Os seus pontos principais são: a leitura e a vivência
do cristianismo na base da experiência africana, a pastoral
da saúde, baseada na procura da cura, a valorização
da leitura da Bíblia e do papel dos leigos, a responsabilidade
dos membros, a participação espontânea e carregada de
emotividade no culto, a veneração dos antepassados,
as cerimónias de bênçãos e de curas.
Nota curiosa é que em Angola este fenómeno enquadra-se
no cristianismo, e a maioria dos angolanos identifica
a religião com o cristianismo. Actualmente, a estatística
e outros dados sociológicos e pastorais indicam que
mais de mil milhões de indivíduos se reconhecem como
cristãos. Mas existem entre as suas comunidades muitas
divisões de ordem teológica, e não só, o que é grave.
Historicamente falando, é mais no Norte, região da etnia
bakongo, onde, nos alvores do século XVIII, surgiu este
fenómeno que deu largos passos. Neste sentido, sublinham-se
mais alguns factores de maior relevo que estão na base
da sua proliferação: económico, material e espiritual.
Os interesses económicos são evidentes. Muitos dos líderes
destes novos movimentos realçam este aspecto, fazendo
com que as suas acções e comunidades passem a ser “meios
de exploração” ou de “angariação de fundos”, ao mesmo
tempo que esses “profetas” são vistos como apaziguadores
do sofrimento de uma população que vive em situações
de crise económica, social e psicológica. A experiência
não desmente este dado.
No que toca à parte espiritual, pode-se dizer que surge
em grande plano a “revelação dos feiticeiros”, especialmente
crianças, uma preocupação que tem estado na ordem do
dia. Pelo que em muitas novas comunidades, é a “prática
da feitiçaria” que ocupa um lugar central, segundo a
tradição africana, mas que hoje deve merecer outra consideração
para evitar desgraças que abatem sobre muitos inocentes.
A crença em feitiçaria tem provocado muitos danos em
vários sentidos. Semeia o pânico entre os seus membros.
Para além do pânico, há outras consequências nefastas:
exploração, mentira, falsas acusações, violência, vingança,
morte, luto, divisão das famílias, crianças abandonadas,
etc. Ora, tratando-se de uma prática condenável, a pastoral
dos movimentos promotores desta prática deve ser posta
em causa.
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